sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Benfica de Vieira: A melhor década do FC Porto


«Chegou à presidência com a responsabilidade de devolver o Clube às suas glórias passadas, tendo-o conseguido com sucesso».

A frase está escrita no site oficial do Benfica e diz respeito a Luís Filipe Vieira. Apesar de ser da responsabilidade da equipa de investigação histórica do SLB carece notoriamente de rigor e distanciamento. Além de ser apressada. Afinal, Vieira ainda está na cadeira mais desejada do clube, ninguém sabe quando e como terminará a passagem pela Luz.

Uma visita ao perfil de outros presidentes, por exemplo com sucessos europeus e anos de domínio nacional, sublinha o essencial: Luís Filipe Vieira pode falhar em muitas coisas, mas a comunicação não é uma delas. Pelo menos nos tempos recentes. Este é só um detalhe, provavelmente sem grande importância, que prova o essencial: nunca um presidente do Benfica teve ao dispor tantas e tão poderosas formas de escrever a sua versão da história. O mínimo que se pode dizer é que tem sabido aproveitá-las. A televisão do clube, o jornal, a revista, o site. Tudo isso, além da imprensa desportiva mais dependente dos maiores clubes e de quem os dirige.

Quando a história olhar para o momento em que Luís Filipe Vieira foi eleito verá um clube a recuperar das dificuldades em que o pior presidente de sempre, João Vale e Azevedo, o tinha deixado. O trabalho mais duro, no entanto, já tinha sido feito por Manuel Vilarinho.

Em 2000, quando Vilarinho ganhou as eleições, Vieira começava a fazer-se notado pelo projeto em Alverca. A candidatura chegou a ser noticiada, mas decidiu ficar na sombra. Em outubro desse ano, o sócio número 7331 fez saber que não iria a jogo. Menos de um ano depois estava na SAD. Em agosto de 2002 admitiu candidatar-se, desde que Vilarinho não o fizesse. Em setembro já era presidente da SAD. No início da noite de 1 de Novembro de 2003 o clube caiu-lhe nas mãos.

Ainda hoje, dez anos depois, Vieira gosta de lembrar o fantasma dos tempos negros. O contraste com Vale e Azevedo sempre o favoreceu. Funcionou de forma quase perfeita em tempos de atos eleitorais. A marca da década anterior continua muito presente. Talvez também por isso os sócios tenham aprovado sem grande discussão as alterações estatutárias que reduzem a margem de influência dos adversários do presidente.

Uma década depois, fica a minha análise ao trabalho de Vieira, em dez pontos. A história far-se-á um dia.

O número
O Benfica venceu dois campeonatos na última década. Na anterior tinha conseguido apenas um. Na dolorosa época de 1993/94, antes de Manuel Damásio ter tido uma das piores ideias da história do clube: trocar Toni e Jesualdo Ferreira por Artur Jorge.

Dois é melhor do que um, mas continua a parecer pouco. Sobretudo quando se olha para as décadas anteriores.

Por culpa de Benfica e Sporting e muito mérito próprio dos portistas, a última década foi a melhor de sempre na história do FC Porto. Oito vezes campeão, conseguiu ainda tempo para vencer uma Liga Europa e uma Liga dos Campeões. Escrito de outra forma: Luís Filipe Vieira tem sido o presidente do Benfica perfeito para Pinto da Costa. No Sporting qualquer um tem servido, o resultado é igual: nada. Dizem os factos.

Décadas
2003/04-2012/13 (2)
8 titulos FC Porto
2 titulos Benfica

1993/94-2002/03 (1)
6 FC Porto
2 Sporting
1 Benfica
1 Boavista

1983/84-1992/93 (4)
6 FC Porto
4 Benfica

1973/74-1982/83 (5)
5 Benfica
3 Sporting
2 FC Porto

1963/64-1972/73 (8)
8 Benfica
2 Sporting

1953/54-1962/63 (5)
5 Benfica
3 Sporting
2 FC Porto

1943/44-1952/53 (2)
7 Sporting
2 Benfica
1 Belenenses

1938/39-1942/43 (2)
2 Benfica
2 FC Porto
2 Sporting

A guerra
Os presidentes do Benfica vão mudando, a relação com Pinto da Costa mantém-se, genericamente, idêntica. Desde o pós-Fernando Martins que é assim. A responsabilidade maior não pode, pois, ser colocada do lado de quem se sentou na presidência da Luz. Tudo começou em Pinto da Costa, há muitos anos, com métodos por vezes nada recomendáveis. Com Luís Filipe Vieira chegou a parecer que poderia ser diferente. Afinal, enquanto líder do Alverca, Vieira chegou a ser amigo de Pinto da Costa, com relações pessoais e negócios entre os emblemas. Pura ilusão. Com Vieira na liderança, a «guerra» entre os dois clubes subiu de tom e atingiu fases de inacreditável violência. O processo apito dourado acentuou as distâncias e deixou marcas que perdurarão pelo menos durante o tempo que os dois homens estiverem à frente de FC Porto e Benfica. O principal prejudicado tem sido o futebol português.

As contas
Nenhum clube português surge entre os 20 maiores da Europa em volume de receitas, de acordo com os mais recentes dados da consultora Deloitte, que há anos se dedica este tipo de estudos. No entanto, no último sorteio da Liga dos Campeões Portugal tinha dois clubes no pote 1: Benfica e FC Porto.

Apesar de por vezes os prejuízos se sobreporem aos lucros e de os passivos parecerem assustadores, Benfica e FC Porto têm conseguido gerir de forma invejável os recursos de que dispõem. Os dois clubes fazem parte dos locais onde os maiores predadores (Real Madrid, Chelsea, Manchester City, Atlético Madrid, Zenit, Mónaco) passam para se alimentar de talento.

A relação muito próxima com fundos de investimento e grandes empresários tem permitido aos dois clubes receber futebolistas jovens de qualidade que depois de um, dois ou três anos de desenvolvimento são vendidos por somas dignas de realce. Se existe uma roda que faz o futebol andar, Benfica e FC Porto estão lá metidos.

A gestão de ambos envolve risco e os tempos correntes, de crédito escasso e caro, colocam desafios permanentes. A verdade é que em dez anos nunca mais se ouviu falar de problemas de tesouraria e/ou financeiros. Mérito indiscutível de Vieira.

As ideias
A última década foi especialmente criativa na Luz. Os nomes nas bancadas, a designação do centro de estágio no Seixal, a campanha de sócios, a Benfica TV, o Museu. A gestão de Luís Filipe Vieira não pode ser acusada de não ter procurado estimular a relação com os associados, identificados desde o início como o principal ativo. E de facto são. A aposta na Benfica TV, pioneira e arriscada, é só o último exemplo. Nesse aspecto Luís Filipe Vieira foi sempre muito consistente e tem colhido merecidos frutos.

O feito
O Estádio da Luz, o novo Estádio da Luz, é muitas vezes associado a Luís Filipe Vieira. Na verdade, Manuel Vilarinho era o presidente no dia da inauguração (25 de outubro de 2003) e Mário Dias foi o homem que mais horas deu ao projeto. Mas Luís Filipe Vieira, até pelas ligações profissionais à construção, foi sem dúvida um dos responsáveis pelo sucesso da obra que marcará as próximas décadas do Benfica.

O momento
Eleito em novembro de 2003, Luís Filipe Vieira viveu a situação mais infeliz e delicada à frente do clube logo em Janeiro de 2004. Fehér morre em campo, durante um jogo com o Vitória de Guimarães, e os benfiquistas podem ver o lado emocional do presidente. Chega a colocar a possibilidade de abandonar, de parar, mas recompõe-se e segue em frente. Dificilmente passará por algo equivalente. Vieira soube estar à altura no mais dramático dos momentos desta década.

A deceção
Não é preciso pensar muito: a última época desportiva foi a maior deceção. O Benfica já tinha deixado fugir vantagens confortáveis, mas desta vez foi de mais. Primeiro o campeonato, depois a final da Liga Europa, por fim a Taça de Portugal. Jorge Jesus tentará até ao fim dos seus dias fazer desta uma boa temporada, mas até o regresso a uma decisão europeia perdeu brilho no meio de tamanha deceção. A maior parte dos dirigentes não teria resistido à tentação de trocar de treinador, ainda por cima em final de contrato. Vieira insiste em Jorge Jesus. Uma aposta de alto risco que o futuro avaliará. Para já, o FC Porto lidera com cinco pontos de vantagem em oito jornadas. Nada de novo, portanto.

A Frase
No início, Vieira dizia tudo o que lhe passava pela cabeça e isso era bom para os jornalistas. Apesar de esquivo, sempre que decidia falar oferecia títulos. Na televisão funcionava mal. O conteúdo podia estar lá, mas a forma era péssima. Melhorou com o tempo e passou a gerir o silêncio. Para a histórica ficaram frases inesquecíveis como a possível venda de Mantorras por «18 milhões de contos», os «três campeonatos a cada quatro épocas» e, mais recentemente, «o melhor plantel dos últimos 30 anos». Tudo frases que o perseguiram. Talvez a mais relevante tenha sido dita em 2002, ainda antes de assumir a presidência, quando afirmou que tinha a coluna vertebral do futuro Benfica campeão europeu. Passaram onze anos.

Os exotismos
Um protocolo com o Cluj, na Roménia. Aconteceu no Benfica, mas até hoje não se percebe quem lucrou com isto. Houve mais exotismos deste tipo, mas os maiores passaram pelo plantel e têm nome próprio. Eis alguns, com link, para o caso de já não se recordar.

Zack Thorton (guarda-redes), Yannick Quesnel (guarda-redes), André Luís, Delibasic, Karadas, Moretto (guarda-redes), Karyaka, Manduca, Diego Souza, Kikin Fonseca, Zoro, Andrés Diaz, Bergessio, Yu Dabao, Freddy Adu, Makukula, Balboa, Binya, Shaffer, Keirrisson, Kardec, Roberto (guarda-redes), Júlio César (guarda-redes), Capdevila, Yannick Djaló, Rodrigo Mora e Michel. Funes Mori é forte candidato a entrar na lista.

O pior negócio da gestão Vieira foi sem dúvida o guarda-redes Roberto. Tão mau que o único resultado positivo que deu foi recentemente, ao deixar escapar para Cardozo uma bola que deveria ter afastado da baliza. Resultado: o Benfica empatou com o Olympiakos. Somou um ponto, manteve-se na luta pelo apuramento na Liga dos Campeões e recebeu uns milhares de euros. Ir buscar Djaló ao Sporting foi também incompreensível, embora provavelmente mais barato.

Vieira teve um mérito: tirou uma fotografia ao lado de Sunil Chhetri mas não contratou o indiano, sério candidato a pior jogador de sempre de um grande clube português.

O erro
Sempre que tem hipótese, Vieira elege o despedimento do treinador Fernando Santos como o seu maior lapso enquanto presidente do Benfica. Por esses anos, com Paulo Bento no Sporting, os «encarnados» nem sequer conseguiam terminar em segundo lugar. Apanhar o FC Porto era uma miragem.

Nenhum treinador parecia suficientemente bom para se manter. Tinha havido Toni, depois Jesualdo Ferreira («Temos um grande homem, um grande comando técnico», disse em 2002, e a seguir foi o que se viu), a seguir Camacho (ganhou uma Taça de Portugal, a José Mourinho) e enfim Trapattoni.

Com o italiano no banco, um futebol sofrível e Mantorras na frente, os «encarnados» puseram fim a onze anos sem títulos. Houve festa, mas ganhar parecia não ser suficiente.

Koeman devolveu alguma Europa à Luz mas também só durou uma época. Veio enfim Fernando Santos, despedido após uma temporada e dois meses.

Seguiram-se mais treinadores até que em 2009/10 surgiu Jorge Jesus.

Pelo meio, Vieira mudou diversas vezes a estrutura. Aproximou-se, afastou-se, aproximou-se outra vez da gestão do futebol. Deu tudo a José Veiga e tudo lhe tirou. Promoveu Rui Costa, para depois o remeter para um lugar discreto e um papel que ninguém parece muito preocupado em explicar. Também por ali andaram António Simões e António Carraça.

Dez anos depois, no Benfica ainda é possível ouvir um treinador dizer que quem pensa a estrutura é ele. Talvez esse seja, afinal, o maior erro: nunca ter conseguido montar no futebol uma estrutura clara, sólida, com as pessoas certas. Apoiá-las, sempre. A história julgá-lo-á.


-Luís Sobral, Mais Futebol

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

MENTIRA FCP: Carolina Salgado apagada da foto oficial da visita ao Papa João Paulo II


Hilariante: Jornal de Noticias coloca foto tauromáquica para ilustrar jogadores do Porto


Vítor Serpa: Melhor comentário sobre Joseph Blatter foi de Jorge Jesus



Jorge Jesus foi lapidar na sua curta declaração sobre a despropositada atitude do presidente da FIFA na sua cena trágico-cómica sobre a comparação entre Messi e Ronaldo. Disse o técnico do Benfica: «O presidente tem de perceber que as vedetas no futebol são os jogadores.»


Nada do muito que entretanto foi dito, especialmente na velha Ibéria, me pareceu tão equilibrado, tão verdadeiro e tão assertivo. Tanto mais que Jesus tocou na ferida aberta de Blatter: uma profunda sede de protagonismo, uma quase descontrolada tentação pelo palco.

Criado em lume nem sempre brando pela figura patriarcal de João Havelange aquele que era, apenas, um desconhecido coronel do exército de um país desmilitarizado, tornou-se no braço armado do brasileiro que comandou e transformou a FIFA num género de Vaticano do futebol, um estado dentro de um estado. 

Blatter foi um secretário-geral particularmente ativo, conheceu e viveu o sistema da organização e isso foi-lhe crucial na hora de disputar a cadeira de presidente a Lennart Johansson, o então presidente da UEFA. 

Na cadeira presidencial, Blatter tornou-se um homem de enorme poder e não falo apenas de futebol. Usou-o com inteligência e com óbvios e notáveis proveitos, mas nunca perdeu a sedução pelo protagonismo. É um homem de vaidade pura. Um homem que, um dia, em Las Vegas, vi desafiar o grande comediante Robin Williams. O americano destroçou-o pelo ridículo.

Há quem diga que Blatter tem os tempos contados como presidente da FIFA. Pelo caminho da sua inquieta presidência foi, de facto, deixando demasiados inimigos. Não me parece que este lamentável incidente seja decisivo. 

Platini é que gostaria que sim. 

- Vítor Serpa, jornal A Bola, 31 de Outubro de 2013

Leonor Pinhão: Pinto da Costa fez as pazes com o Youtube



(...) TENHO visto muitos benfiquistas zangados - ah, aquelas coisas das rivalidades... - por no Museu do FC Porto existir um recanto todo dedicado ao golo do Kelvin, o golo que deu o título ao dono do museu na temporada passada.

Estão zangados pelo recanto em si - Espaço K, chama-se - e estão zangados porque o lance do golo é exibido ininterruptamente em ecrã gigante, desde que o feliz proscrito brasileiro pegou na bola até ao momento em que Jorge Jesus se ajoelhou.

Basicamente é isto. Uma homenagem à grandeza do Benfica. Vejam lá se no Museu do FC Porto existe algum recanto especial para aquele campeonato triunfalmente ganho ao Sporting com a mão do Ronny? Não. Claro está que não.

O Museu do FC Porto foi oficialmente inaugurado a 28 de Setembro mas só abriu portas ao público a 26 de Outubro festejando logo o seu 12.º aniversário. É muito mais antigo do que o Museu do Benfica.

Na cerimónia de abertura ao público, no fim de semana passada, o presidente do FC Porto disse que todos os dias revê o golo do Kelvin e que há dias em que vê seis vezes.
Ainda bem.
Graças ao golo do Kelvin o presidente do FC Porto fez as pazes com o Youtube.

- Leonor Pinhão, jornal A Bola, 31 de Outubro de 2013

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Bagão Félix: Benfica e Porto são equipas de Liga Europa

 

Na Europa acentua-se o fosso entre meia dúzia de clubes endinheirados ou propriedade de súbitas oligarquias predatórias e os outros que se esforçam por competir, pese embora a desigualdade de meios. Basta olhar para os nossos principais clubes, não obstante todos os desejos, sonhos ou ilusões.

Benfica e Porto só por acumulação de muitas circunstâncias favoráveis poderão almejar vencer a Liga dos Campeões. A sua liga é, de facto, a Liga Europa. E aí a (ingrata) questão que se lhes coloca (e a nós adeptos) é entre um lugar de apuramento na poule da Champions para cobrar um bom pecúlio financeiro ou, não o arrecadando, ter a possibilidade de chegar longe na 2.ª divisão europeia.

Desde que a Taça UEFA virou Liga Europa em 2009/10, Portugal teve 3 finalistas em 8 possíveis (Benfica, Braga e o vencedor Porto) e foi 8 vezes semifinalista (além dos clubes já referidos, o Sporting). É este o palco natural do nosso futebol.

Na Champions das mesmas épocas, o melhor que se conseguiu foi uns quartos-de-final com o Benfica (2012/13) e uns oitavos-de-final com o Porto (2009/10 e 2012/13). Todavia, no ranking (actual) da UEFA, o Benfica ocupa a 6.ª posição e o Porto a 9.ª, ao mesmo tempo que novos colossos de agora ainda não são relevantes nessa lista (p. ex.: PSG é o 20.º, Manchester City o 27.º e Mónaco nem consta dos 453 clubes!).

A democratização clubística no acesso português à Europa é de aplaudir, mas, em regra, segue-se-lhe o reverso da medalha. Sem o Sporting e o Braga, o perigo de retroceder no ranking dos países pode implicar menos e mais difíceis presenças na Champions. Um círculo vicioso. 

- Bagão Félix, jornal A Bola, 30 de Outubro de 2013

Luís Freitas Lobo: Gáitan tem que jogar a 10

 

Tenho dificuldade em aceitar a facilidade com que se fala que o problema de uma equipa é mental. Claro que é importante, mas vejo esse impacto a condicionar mais no campo individual a execução dum jogador. Não acho, por isso, que seja esse o problema do Benfica. A questão é coletiva e o dilema tático atual é o mesmo de quando essa questão mental nem se colocava. Baseia-se no desequilíbrio do corredor central e espaço vazio excessivo que, muitas vezes, fica entre os dois médios e a dupla atacante. Tal sente-se, sobretudo, no momento de perda da bola, em jogos mais exigentes. Com esse terceiro médio, o onze pode ficar menos veloz a atacar, mas fica mais equilibrado. 

O melhor jogador para fazer esse papel será aquele com maior intensidade e visão de jogo. Djuricic não garante isso. Quem podia, cada vez mais, ser protagonista desse upgrade tático é Gaitán. No flanco, joga bem mas fica taticamente subaproveitado. Dar-lhe o n.º 10 mudaria a forma de pensar da equipa, hoje com a mente presa a um sistema por natureza taticamente desequilibrado. 

- Luís Freitas Lobo, jornal A Bola, 30 de Outubro de 2013

Rui Dias: A única salvação de Jesus

 

1. Os futebolistas são os primeiros a sentir as fraquezas de quem os comanda, sinal de que percebem automaticamente quando a rédea fica um pouco mais larga. Ao menor sinal de precariedade na posição do líder, os soldados têm a tendência natural para serem menos recetivos às ordens, aos conselhos e demais orientações. Na sua recente autobiografia, sir Alex Ferguson confirma a ideia: "No momento em que o treinador perde a autoridade, o clube deixa de existir. Os jogadores assumem o controlo e ficamos em apuros." Naturalmente Jorge Jesus viu a posição fragilizada no Benfica pelos acontecimentos na final da Taça de Portugal. Agora, só uma boa relação com o exército que comanda permitirá evitar a rotura.

2. Jesus pode receber o apoio do presidente, ver diminuída a contestação dos adeptos ou amenizar a revolta oriunda das mais diversas plataformas mediáticas; pode até ver fortalecida a tolerância face às explicações para o mau início de temporada; mas a chave para salvar-se está na gestão do dia-a-dia, em todos os elementos de relacionamento com a equipa e nessa paixão de uso quotidiano que é o treino. O atraso não é irremediável e tudo se resume agora a fazer com que uma sugestão volte a ser entendida como ordem; que qualquer ataque ao comandante recupere a dimensão de ofensa à pátria; que entre uns e outros se restitua uma relação de confiança para divinizar o compromisso dos jogadores com a bandeira, com a luta, com a vida que escolheram e com o homem que os lidera.

3. O Benfica não se contenta com vitórias sofridas, feitas de inteligência tática, pragmatismo e disciplina; desvaloriza os favores da sorte e não sabe viver em regime impessoal de formalismos, com ausência de afetos e cumplicidades. Ganhar só faz todo o sentido se as manifestações de superioridade forem indiscutíveis e os adversários se renderem à evidência; no fundo, é preciso cumprir os requisitos da arrogância dominadora cravada no ADN do clube e de que Jorge Jesus tem sido intransigente defensor. De resto, o maior problema não é a gestão dos recursos, muito menos a capacidade de cada elemento perceber o papel que lhe está consignado no plano global. A questão é que o Benfica tem sido, continuadamente, uma equipa estrita, formal e austera, que se limita a cumprir as linhas básicas da cartilha.

4. Tudo depende agora se a equipa recupera ou não o sentido de aventura e os valores adjacentes de exaltação, dinâmica, intensidade, autoestima... Os jogadores têm de aceitar a orientação que lhes é dada mas devem também dar cunho pessoal à execução. É como na música: pode tocar-se Mozart pela frieza de uma pauta ou interpretá-lo com a paixão e o génio de Maria João Pires, por exemplo. Não se trata de apelar à desobediência mas de recordar que ninguém atinge a excelência limitado a cumprir ordens. No clima tumultuoso da Luz, a paz só chegará com a esperança, tal como a harmonia só será duradoura se o general inculcar nos soldados o prazer pelo jogo e o orgulho de servir a causa. Só com uma relação global de compromisso a nau chegará a bom porto; só com os padrões estéticos e competitivos de outrora a família encarnada voltará a ser feliz. 

- Rui Dias, jornal Record, 30 de Outubro de 2013

José António Saraiva espantado com resistência fisica dos jogadores do Porto


Muitas dúvidas desfizeram-se neste fim de semana. O FC Porto continua a ser a melhor equipa portuguesa. Contra o Sporting, pareciam seniores a jogar contra juniores. Todos os anos os seus adversários pensam: "Agora é que é!" 

Mas sai Falcão, sai Hulk, sai Moutinho, sai James, muda o treinador - e a equipa mantém o nível. Porque vão saindo as pérolas mas não sai o diamante - que se chama Pinto da Costa.

Há uma coisa que impressiona muito no Porto: a resistência física, a presença em campo, a entrega total ao jogo. Os jogadores do Porto disputam cada lance como se dele dependesse a vitória ou a derrota. Fazem carrinhos, atiram-se ao chão, esforçam-se, fazem faltas - mas não deixam o adversário jogar.

O curioso é que, enquanto os jogadores do Porto disputam todos os lances no limite e não se lesionam, os do Benfica estão constantemente a lesionar-se.
Como estender isto? 

Os de azul e branco esfarrapam-se todos e estão sempre aptos; os de vermelho parecem não querer sujar os calções e estão sempre magoados. No Benfica, as lesões sucedem-se a um ritmo estonteante. Um dia é Salvio, depois Amorim, depois Enzo, depois Markovic, depois Sulejmani, depois Fejsa, depois Gaitán, agora Siqueira. A que se deverá esta diferença abissal de resistência física? 

Danilo, Otamendi, Mangala, Alex Sandro, Fernando, Josué, Martínez jogam sempre em alta rotação e estão sempre disponíveis; os do Benfica jogam um jogo e ficam de rastos.

Volto agora a um tema que já tratei: os corredores laterais do Benfica. A equipa parecia de início ter extremos a mais - e hoje não tem nenhum extremo realmente bom. Há uma esperança chamada Cavaleiro. Vamos ver se se confirma. Mas quando Salvio voltar o que será dele? Poderá jogar no lado esquerdo? E o que será de Gaitán? Fica como "vagabundo"? Uma coisa é certa: o Benfica só recuperará a alegria de jogar quando os corredores laterais funcionarem.

À 9.ª jornada, a equipa ainda anda à procura de soluções, como se estivesse na pré-época. 

- José António Saraiva, jornal Record, 30 de Outubro de 2013

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Nuno Santos: Canais de TV dos clubes portugueses são opções de risco



Em Portugal já tínhamos uma televisão de clube que era um Ovo de Colombo porque, ideia até ver brilhante, comprou alguns dos direitos mais apetecidos – como a Liga Inglesa – e fez sombra ao canal de desporto monopolista, a SportTV, há muito instalado no mercado; em Portugal já tínhamos uma televisão de clube que o é sem o ser, visto que pelo meio da programação desportiva e das entrevistas mais desejadas apresenta programas de entretenimento e noticiários regionais num modelo misto que, sendo e parecendo híbrido, tem tido boa aceitação. Ora, como se tudo isto não bastasse vamos agora ter uma terceira televisão de clube – as duas primeiras são de Benfica e FC Porto, a que segue é do Sporting – que tendo um modelo mais convencional, de transmissões de modalidades do clube e debates quer ter estúdios em três locais diferentes e meios ambiciosos mas tudo com valores que, mesmo em tempo de crise, não podem ser verdadeiros.

Em todo o mundo – e estamos a falar do primeiro mundo futebolístico –, os canais de clube surgiram com dois objetivos – divulgação da marca e dos seus interesses comerciais e corporativos e criação de comunidade. Em Portugal, apesar de os responsáveis pelos clubes portugueses conhecerem bem e terem visitado em muitos casos os canais estrangeiros, decidiram fazer quase tudo ao contrário e nalguns casos tomar verdadeiras opções de risco. A mais temerária é a da Benfica TV. Os responsáveis do projeto dirão hoje que ele já é sustentável e que será rentável (atenção, são dois conceitos diferentes) no futuro. Não tenho dados que me permitam aferir se é verdade ou não, mas tenho Domingos Soares de Oliveira, que lidera o projeto, na conta de um gestor sério e rigoroso, o que não é um detalhe. A opção que o clube fez por ficar com os jogos no seu canal, a par da compra da Premier League, permitiu-lhe também alguns importantes negócios além-fronteiras, onde a marca Benfica tem peso. O problema que existia, quer de direitos de transmissão quer de conflito de horários, será resolvido com o aparecimento de um segundo canal, ao que sei já aprovado pela Entidade Reguladora.

Será este negócio para continuar? Se perguntarmos aos responsáveis do Benfica, eles dirão que sim, fazendo o que lhes compete, mas existindo players internacionais que têm como atividade comprar, gerir e emitir desporto não devemos afastar a hipótese de um dia destes – num ano não muito distante – algo ser diferente na oferta desportiva da televisão em Portugal.

-Nuno Santos, jornal Record

Fernando Guerra rendido à obra de Vieira: É um grande líder, à imagem de Fernando Martins


Os anos passam e a memória esvai-se. Os problemas do presente são imensos e graves. Consomem-nos a vida. As pessoas estão perdidas e sem uma gota de esperança. Talvez lhes faça bem revisitarem o passado e tentarem descobrir nele exemplos de coragem e abnegação que venceram obstáculos colossais: como o do Benfica, em que se derrubou o impossível e de um amontoado de ruínas nasceu um estádio considerado o melhor do mundo, na relação qualidade/preço, pelo arquiteto australiano que assinou o projeto. 

Eu próprio confesso a surpresa, ou o descuido, quando, na edição da última sexta-feira, a reportagem publicada em A Bola, da autoria do jornalista Fernando Urbano, me alertou para o décimo aniversário da data da inauguração do majestoso empreendimento. Logo me recordei do arranque de operação extraordinária que exigia denodada luta contra o tempo. Era preciso correr para concretizar obra de tamanha grandeza em 25 meses. Os jogos continuaram a realizar-se no antigo estádio. Inexplicável a sensação de se testemunhar a progressiva eliminação da bancada norte, como se implacável fenómeno da natureza tivesse cortado o estádio ao meio... até à demolição total.

Partindo atrasado na corrida para acolher o Euro-2004, comparativamente a FC Porto e Sporting, e numa situação de pré-falência, como vincou Manuel Vilarinho, o presidente na altura, a verdade é que, quando abraçou a empreitada, o Benfica não só deu início ao soberbo processo de recuperação, como provou que a chamada 'alma benfiquista' , não se explicando por definição, é qualquer coisa de místico que une os adeptos em torno de uma causa que atribui ao emblema da águia significado que o diferencia de todos os outros.

Afirmou o arquiteto Damon Lavelle que o novo Estádio da Luz «é uma verdadeira lição para todos». Foi desenhado para ser construído em «tempo recorde» e informou que tem conversado com pessoas em todo o mundo, garantindo tratar-se de «um estádio universalmente admirado pelo seu ambiente e energia».

Foi inaugurado a 25 de outubro de 2003 e Luís Filipe Vieira eleito presidente a 31, com 90 por cento dos votos, depois de ter acompanhado a par e passo o desenrolar da construção, então integrado na equipa de Vilarinho.
Seis dias separam dois acontecimentos que assinalam de forma indelével o despertar do 'Benfica do futuro': novo estádio e novo presidente. 

Os 'ilusionistas' foram derrotados e os trapaceiros excluídos. Apregoam os maledicentes congénitos, porém, na falta de argumentos minimamente interessantes e convincentes, que um clube desportivo 'vive' de títulos e não de obras. Isso é verdade, em parte, e pode dar balanço em estratégias eleitoralistas, em que se promete muito para se dar pouco: se não houver obra também haverá sucesso! Depois de amanhã, Vieira completará dez anos na presidência e, em minha opinião, tem sido um grande líder desde o primeiro dia, à imagem de Fernando Martins, e de quantos o antecederam e contribuiram para enriquecer e expandir a instituição Benfica.

No espaço da Segunda Circular surgiu um complexo desportivo moderno. Há piscinas, pavilhões, ginásios e outras instalações. Há um museu inovador. Há zonas comerciais e de lazer. Há um estádio notável e admirado, razão pela qual vai receber a final da Liga dos Campeões, em maio de 2014.

No Seixal, há um centro de estágio bonito, de agradável enquadramento paisagístico e de reconhecida qualidade. Proximamente, mais e melhores condições em perspetiva para atacar o século com entusiasmo e confiança e ainda uma Casa do Jogador, ideia que demonstra a nobreza de caráter do presidente benfiquista.

Para ele, a gente é muito importante: com gente feliz o clube não vai parar de crescer. Pois é, insistem os vendedores de promessas: o Benfica constrói e o Porto ganha. Tem sido assim, de facto. Mais do que ninguém Vieira deseja inverter essa tendência e tem investido na valorização da equipa de futebol como provavelmente nunca se fez. Jesus não ajuda, mas parece-me condenável que muitos dos que aplaudiram a sua escolha se aproveitem agora da inépcia do treinador para atacarem o presidente, desvalorizando a obra e o homem. A isso chama-se ingratidão. E os ingratos nunca trazem nada de bom. 

- Fernando Guerra, jornal A Bola, 29 de Outubro de 2013

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Vítor Serpa: Mudar ou não mudar Jorge Jesus


Que razões poderão levar um treinador que se mantém no mesmo clube por quatro anos e sem demasiadas alterações de jogadores a não conseguir atingir os mesmos níveis de qualidade exibicional da equipa, nem os mesmos níveis de resultados?


Esta é a pergunta essencial que o presidente do Benfica deverá fazer todas as manhãs, quando acorda atormentado pelo que vê e pelo que ouve. Mas é uma pergunta que precisa de resposta urgente. 

O Benfica vive tempos de uma inquieta resignação perante a evidência de um futebol sem brilho e sem entusiasmo praticado por uma equipa desconchavada, mas onde se reconhece a existência de jogadores de qualidade e que, de repente, como se fossem atingidos por um raio negro, deixaram de saber jogar o futebol com que, antes, encantavam milhões.
Não é fácil, principalmente a quem está de fora, poder falar das causas da doença e, muito menos, receitar o remédio para a cura. Provavelmente, nem sequer é fácil a quem está por dentro e vive o dia a dia da equipa na relação direta com o seu treinador.

Arrisquemos alguma coisa: a primeira ideia aponta para um problema de caráter psicológico. Do treinador e dos jogadores. Para sermos mais precisos, um problema mental (falta de confiança, diminuição de níveis de autoestima, cansaço psicológico) dos jogadores, causado por um problema mental do treinador (insegurança, indignação, intranquilidade e solidão).

Num clube em cuja estrutura envolvente do futebol profissional se diminui à custa da forte personalidade do treinador, o caso torna-se, evidentemente, mais sério.

Jorge Jesus precisa de urgente apoio e é verdade que Luís Filipe Vieira o tem dado publicamente, aparecendo, aqui e ali, a manifestar confiança no técnico e no homem. Como se tem visto, não chega e já não adianta a manifestação diária de confiança da parte do presidente. Não adianta e nem sequer se recomenda, pela ineficácia a que estará votada e pelo desgaste que, a ambos, provoca.

Jorge Jesus viverá, atualmente, uma fase de negação e de indignação. Sente-se sozinho contra o mundo e isso bloqueia-o mentalmente e inibe-o de encontrar as melhores soluções e a paz de espírito absolutamente necessária para poder ter a lucidez e a clarividência para chegar à solução.

A questão da substituição do treinador deve, assim, ser apenas questionada pelo Benfica e, de forma muito particular, pelo seu presidente, no momento em que chegar à conclusão de que, face às circunstâncias e à natureza da estrutura (ou da sua falta) não há condições para resolver o problema mental do futebol profissional do Benfica num quadro interno.

Julgo que a maneira triste e abatida como os jogadores encaram os jogos, diminuindo-lhes a capacidade competitiva e podendo, até, dar uma imagem falsa de ausência de condição física, se fica a dever, em percentagem elevada, à súbita ausência de capacidade de liderança do seu treinador. Não me interpretem mal. Não quero dizer com isto que Jesus tenha perdido, de repente, a autoridade junto dos seus jogadores. O que quero dizer é que nem sempre a autoridade é sinónimo de liderança. 

Um líder só é líder quando influencia os homens e as mulheres com quem trabalha, quando os torna melhores, quando os convence de que aponta o caminho certo. Um líder só é líder quando gera, naturalmente, uma relação de confiança e de reconhecimento pelo seu saber, pelo seu exemplo, pela sua intrínseca respeitabilidade.

Pode parecer impossível que essas qualidades possam mudar de um momento para o outro, mas a verdade é que, mesmo quando não mudam, podem alterar-se. De forma definitiva ou provisória. Foi Ortega Y Gasset quem nos disse sabiamente que o homem é sempre ele e as suas circunstâncias. São, afinal, essas circunstâncias que podem alterar, mais do que a sua personalidade, as suas qualidades, as suas competências.

Vieira não tem pela frente uma decisão fácil, mas é uma questão que se resume a uma única pergunta, embora decisiva: Pode o futebol do Benfica ainda ter solução num quadro de soluções internas? Será sempre dele - e de mais ninguém - a resposta. 

- Vítor Serpa, jornal A Bola, 26 de Outubro de 2013

João Querido Manha: Cardozo tem sido o anjo da guarda de Jesus


O número de jogos em que Oscar Cardozo vem salvando a pele de Jorge Jesus, marcando golos que vão adiando o agravamento de uma crise latente no Benfica, assume relevância especial por dois motivos: porque já não era suposto ele estar nesse lugar de salvador da pátria e porque acentuam o erro na resolução do incidente da final da Taça.

Desde que lhe foi permitido retomar o lugar na equipa, o paraguaio, sem deslumbrar nem empolgar, vai marcando o ponto, jogo após jogo, resolvendo situações de extrema dificuldade ofensiva que a equipa de Jesus vem revelando, como se colocasse em causa toda a estratégia e processos de um treinador que fez nome pela agressividade e capacidade "artística" dos seus atacantes. A inferior estética do varão paraguaio tem sido, ao longo dos anos motivo para muitos analistas colocarem em causa a sua importância e até os seus méritos como melhor goleador estrangeiro da história do clube, tendo atingido nesta semana uma cifra de 34 golos nas provas da UEFA que dificilmente será igualada.

O Benfica tem uma tradição de exigência teórica nunca satisfeita, sempre em busca do avançado ideal. Lembrando Jardel que não foi contratado ao Grémio porque só marcava golos e não sabia jogar (sic). Lembrando Jimmy Hasselbaink que não vestiu a camisola encarnada porque era demasiado barato (idem). Lembrando os nórdicos Magnusson e Manniche que passaram à história por serem altos e toscos.

O que aconteceu neste ano, depois do incidente do Jamor, foi que muitos benfiquistas festejaram o fim da carreira do paraguaio, exorbitando um problema disciplinar que podia e devia ter sido resolvido em 24 horas com uma multa e pedido de desculpas público. Mas todos achavam que assim se viam livres de um jogador que apenas marca golos e raramente se destaca em notas artísticas ou jogadas de mágica. Até Jesus parecia inebriado com a substituição do paraguaio por um leque de artistas da bola oriundos da brilhante escola sérvia.

O que a dura realidade veio demonstrar, porém, é que sem o velho e desengonçado Oscar, bem afundado em problemas andaria Jorge Jesus por estes dias. Ninguém o pode garantir, mas talvez as vitórias em Guimarães e no Estoril e os empates com Belenenses e Olympiacos nunca tivessem acontecido, e o Benfica contasse menos 5 pontos na Liga e menos um na Champions. Para Jorge Jesus, Oscar tem sido um anjo da guarda, para a equipa um, abono de família, para os adeptos, sempre, um mal-amado. 


- João Querido Manha, jornal Record, 25 de Outubro de 2013

Rui Santos: Qual é a utilidade de Rui Costa no Benfica?


Afinal, qual é a utilidade de Rui Costa no Benfica? 

Um extraordinário ex-jogador não consegue níveis de excelência similares como dirigente. Porquê? Por culpa própria ou por falta de autonomia? Ou por uma questao de "gestão de poderes", uma vez que entre Vieira e Jesus, duas personalidades com características muito próprias, não sobra espaço para mais ninguém? Ou será que o Benfica está a pagar agora a Rui Costa aquilo que Rui Costa prescindiu no seu regresso ao Benfica, independentemente da avaliação das competências enquanto director e administrador?...

Ter sido um grande jogador de futebol provoca um grande fascínio nos adeptos e aumenta a tolerância sobre quem, como é o caso de Rui Costa, desempenha agora funções directivas, exactamente no grande clube da Luz. Não há, contudo, muitos exemplos de excelentes jogadores que se tenham transformado em melhores técnicos ou dirigentes, em comparação com o desempenho enquanto atletas de alta competição.

Nem Di Stéfano, nem Garrincha, nem Puskas, nem Pelé, nem Bobby Charlton, nem George Best, nem Eusébio, nem Maradona nem Gullit, nem Van Basten nem Ronaldo nem Zidane atingiram noutras funções no futebol a preponderância e o reconhecimento público que alcançaram, enquanto eméritos executantes. Há os casos distintos de Platini (presidente da UEFA), Beckenbauer (presidente honorário do Bayern), Hoeness (presidente do Bayern), Rummenigge ("chairman" do comité executivo, também do Bayern), mas, sem embargo de reconhecer que todos atingiram posições de relevância enquanto dirigentes, nada se compara ao brilhantismo que alcançaram enquanto futebolistas: Há ainda o caso de Guardiola. Muito bom jogador (sem ter sido fora de série), que se transformou num treinador de "top", com uma carreira fantástica no Barcelona (aproveito para sublinhar o peso de ex-grandes jogadores, transversalmente, na estrutura actual do Bayern). Sem esquecer, obviamente talvez o caso de maior sucesso de um nome que foi um jogador de excelência, capaz de estender essa excelência ao cargo de treinador (campeão europeu ao serviço do Barça): Johan Cruijff!

Quando Rui Costa regressou ao Benfica ainda para jogar, em 2006, os encarnados recuperaram as recordações deixadas pelo Maestro, durante 3 épocas, no começo da década de 90. E cedo se começou a gerar a ideia que Rui Costa poderia ser, a prazo, presidenciável. Como se viu, nem todos os ex-grandes futebolistas dão excelentes presidentes ou mesmo directores. Uma coisa é certa: Rui Costa foi um executante de eleição, mas ainda não se percebeu o que vale enquanto dirigente. Porque, neste aspecto, a sua permanência na Luz vem sendo muito errática, com altos e baixos e aquilo que de mais seguro se pode dizer a este respeito é que Rui Costa, enquanto dirigente, continua a ser uma... promessa adiada.

Essa imagem de ex-jogador presidenciável talvez tenha provocado algum deslumbramento inicial no próprio Rui Costa, como director-desportivo (2008), mas talvez o tenha prejudicado na mesma medida, uma vez que os holofotes chegaram a estar centrados na sua figura, mais do que para o presidente, Luís Filipe Vieira. Por outro lado, quando Jorge Jesus entra na Luz e consegue de imediato o título de campeão nacional, que já fugia ao Benfica há 5 e... 16 anos, o protagonismo transferiu-se todo para Jorge Jesus, o que concorreu para que Luís Filipe Vieira recuperasse as rédeas do regime presidencialista. Rui Costa iniciou então um período de ocaso e reclusão, de acordo com a conjuntura e só volta a ser falado como alguém com alguma preponderância na estrutura depois de Jorge Jesus (e Vieira) terem falhado, por muito pouco, a reconquista do título nacional. Coisas de conjuntura, um tanto ou quanto caprichosas. Ficámos a saber por LFV, numa entrevista televisiva, a influência de Rui Costa na preparação desta época, designadamente na contratação dos jogadores sérvios. O que significa que LFV quis tornar clara a responsabilidade efectiva de Rui Costa naquilo que já aconteceu e vai acontecer nesta época de 2013/14...

O Benfica está a pagar agora a Rui Costa aquilo que Rui Costa prescindiu no seu regresso à Luz? Não será talvez um acerto de contas contratual, mas é o reconhecimento (do lado dos encarnados) de uma decisão, em tempos, aparentemente sentimental. A pergunta faz todo o sentido porque nunca Rui Costa revelou desconforto em ser uma espécie de "rainha de Inglaterra" no Benfica.

Parece óbvio, no entanto, que o Benfica ainda não encontrou a melhor forma de compatibilizar, sem hipocrisias, as pedras angulares do seu futebol. E já houve tempo e oportunidade(s) para isso... 


- Rui Santos, jornal Record, 26 de Outubro de 2013

Tribunal O Jogo admite penalty por marcar contra o Nacional


Benfica 2-0 Nacional: Relato dos golos Nuno Matos Antena 1

Video: 10º aniversário do Estádio da Luz

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Paulo Olavo e Cunha muito critico com Jesus: Deve treinar mais e falar menos


O antigo presidente da mesa da Assembleia Geral do Benfica e membro da lista derrotada nas últimas eleições afirma que a equipa de futebol "está sem rumo e sem motivação".

Paulo Olavo e Cunha, antigo presidente da mesa da Assembleia Geral do Benfica e membro da lista derrotada nas últimas eleições liderada por Rui Rangel, responsabiliza Jorge Jesus pelo momento que a equipa de futebol atravessa.

O ex-dirigente considera que Jesus "devia treinar mais e falar menos". Olavo e Cunha defende que o treinador não deveria ter continuado esta temporada. "Devia ter havido mudanças", defende, justificando que a época teve uma final "desastroso".

O antigo dirigente benfiquista diz que "não gostava de estar no lugar de Luís Filipe Vieira", mas também entende que "deve haver estabilidade".

Momento de forma é inquietante

Embora ache que o "campeonato não está perdido", Olavo e Cunha vê uma grande "falta de motivação e jogadores que não rendem metade do que rendiam o ano passado". O advogado revela inquietação pela forma como a equipa tem jogado, considerando que parece estar "sem rumo e sem motivação".

Apesar de achar que o Benfica não está arredado da luta pelo título, Olavo e Cunha pressiona o presidente encarnado quando diz que este "corre o risco de incumprimento eleitoral", se não for campeão no final da temporada. Recorde-se que o actual presidente prometeu ser campeão três vezes em quatro anos e falhou o objectivo, na primeira temporada.

-Noticia retirada do site da Rádio Renascença

José Marinho: Jesus está esgotado e vai esgotar o Benfica


O que se está a passar no Benfica, com resultados pobres e exibições confrangedoras, é resultado de uma dependência quase obscena do clube em relação à capacidade do seu treinador para se constituir como factor de equilíbrio na luta pelos títulos com o FC Porto. É verdade que Jesus cometeu demasiados erros, durante quatro anos, que impediram até que os adeptos se juntassem no Marquês, para festejar, pelo menos, mais dois títulos nacionais. Mas também é verdade que a capacidade demonstrada pela equipa para estender até ao fim essa incerteza no campeonato, deveu-se, em grande medida, ao mérito indiscutível de Jorge Jesus.

Nos últimos dois anos, o Benfica não ganhou os campeonatos, mas objectivamente podia e devia tê-los ganho, porque foi a melhor equipa da competição. Durante quatro anos, a estrutura do Benfica escondeu-se atrás do mérito, do carisma e da personalidade do treinador, suspirando pelos títulos e rezando para que Jesus resolvesse tudo. Não resolveu e agora Jesus aparece esgotado e sem aparente capacidade para devolver, pelo menos, o bom futebol à sua equipa. 

Agora, que o treinador deixou se constituir como o factor de equilíbrio entre o Benfica e o FC Porto, começa a emergir, de novo, a insuficiência de tudo o que rodeia o plantel do Benfica e de todo o ambiente estrutural que devia compensar, como noutros clubes, um momento de fraqueza do seu treinador. Ou seja, agora devia ser a estrutura a levar Jesus ao colo, como, durante quatro anos, aconteceu precisamente ao contrário.

E é aqui que chegámos ao ponto. Jesus está esgotado e com isso vai esgotar o Benfica, a sua equipa e os jogadores. 

Ao contrário de muitos benfiquistas, não creio que o actual problema do Benfica se consiga alterar com a mudança de treinador. Do modo como estão as coisas, provavelmente Jesus acabará por deixar o Benfica da mesma forma que o encontrou. Amorfo, bisonho, complexado e desorientado. Gosto de recorrer à memória para colocar as coisas em perspectiva. Foi assim que Jesus encontrou o Benfica. 

Provavelmente é assim que Jesus deixará o Benfica. Sem que o clube e quem o dirige percebam onde está, efectivamente, o problema, nenhum outro treinador mudará nada de substancial na relação cada vez mais viciada entre o Benfica e o insucesso. É nisso que se devem concentrar os adeptos que, nos dias de hoje, se agitam a pedir a cabeça do treinador. Não é apenas ele que está esgotado é todo um modelo de governação no clube que, durante quatro anos, se escondeu atrás do sucesso relativo do futebol espectacular e empolgante que Jesus devolveu ao clube. Tudo o resto é conversa fiada e apenas servirá para adiar a resolução de um problema que se arrasta há mais de vinte anos e que os últimos presidentes do Benfica nunca conseguiram resolver.

-José Marinho, Facebook