Depois do jogo com o Braga, na jornada de abertura da Liga, na Luz, escrevi que o prazo de validade de Jorge Jesus no Benfica há muito expirara. A administração benfiquista devia ter optado pela sua saída imediatamente a seguir ao Campeonato ganho em 2010, sugerindo-lhe uma daquelas propostas irrecusáveis no estrangeiro e aproveitando a embalagem para convidar outra pessoa com melhores argumentos para impulsionar e desenvolver o projeto desportivo entretanto gripado. Porquê?, questionará o leitor que fizer o favor de me ler:
1. Por ser um treinador que ao longo da sua carreira funcionou bem em terapias de choque, com primeiras épocas saudáveis e segundas dolorosas e por ser conhecido o relacionamento agitado com jogadores: se o toleram em cenários de crise, rejeitam-no em ambientes de estabilidade.
2. Por ser um treinador com um umbigo do tamanho do mundo, que fala do 'eu' para amplificar o som das vitórias e do 'eles' para disfarçar a culpa das derrotas. O final da Taça foi, apenas, o último exemplo ao servir-se da expressão «a nossa equipa pensou que o 1-0 chegava» como biombo para ocultar as trapalhadas de quem, afinal, é o responsável técnico por essa mesma equipa.
3. Por ser um treinador da velha escola do truque e da manha. Considera que o «ter olhinhos», como destacou em recente conferência, basta para o tornar 'bom treinador'. Ao nível do Estrela da Amadora, do Moreirense ou do Leiria, onde trabalhou, mas para ambicionar ser campeão precisa de saberes e conhecimentos que me parece dominar mal.
4. Por ser um treinador de navegação à vista da costa e lhe faltar dimensão para compreender a imponência do Benfica: entende que fez um época de sonho e que será maravilhoso repetir a proeza na próxima; ou seja, o Porto campeão e o Benfica... primeiro dos últimos.
5. Por ser um treinador que acaba de perder o seu último troféu e valoriza o facto de ter estado nas decisões, sem se dar conta que essa é a desculpa dos incapazes.
A propósito, em eloquente 'carta aberta a Rui Vitória' publicada em A BOLA a 6 de fevereiro, escreveu Manuel Sérgio que «no futebol, quem só sabe de táticas de futebol será sempre péssimo treinador de futebol» e acrescentou que «o trabalho de um treinador de futebol de alto rendimento transcende os aspetos técnicos e táticos». Sejamos claros, quem quiser ser treinador do Benfica e conquistar títulos não tem de saber tocar piano e falar francês, mas, no mínimo, deve ser polido nos princípios e coerente nas ideias e subordinar-se aos interesses da instituição.
Aqui chegados, como decidir? Depois de Filipe Vieira ter autorizado que nos últimos dois meses a continuidade ou não de Jesus merecesse honras de questão central em detrimento dos verdadeiros objetivos do clube, só por acaso se evitaria esta encruzilhada... Jesus criador de uma ciência e inventor do quinto andamento, coisa que ninguém sabe o que é... Enfim, uma festança tola que deu no que deu, um pouco à imagem do que se assistiu há três anos em que, depois do título de 2010, as mordomias se prolongaram pela temporada seguinte. Consequência? O Benfica acabou com 21 pontos de atraso do Porto e... nada aconteceu. Entrementes, Jesus periodicamente sussurra, ou alguém sussurra por ele, que se não lhe derem o que quer vai para o Porto. Verificou-se há três anos e com alguma cadência até hoje. Novela alimentada e animada, aliás, pelos regulares piropos de Pinto da Costa, os quais, embevecido, agradece.
Na final da Taça de Portugal, a humildade de Rui Vitória foi mais forte do que a fanfarrice de Jorge Jesus: o primeiro apresentou um bloco coeso, solidário e fortemente crente; o segundo, uma equipa saturada, insegura e fraturada. Que fazer, então? Vieira vai ter a última palavra, mas, ao fim de quatro anos de contrato, Jesus adquire a propriedade do pior registo da história do Benfica em termos de conquistas (campeonato e Taça de Portugal)...»
- Fernando Guerra, jornal A Bola, 28 de Maio de 2013