Chegou ao fim a época desportiva. A eventual conquista da Taça de Portugal pouco significado tem para avaliar o que de bem foi feito. Este é o momento de fazer o balanço com responsabilidade e honestidade intelectual. Não vale a pena continuar no jogo da mentira e da falsidade. Nem continuar a dizer que os culpados são os árbitros. Os benfiquistas não merecem. Da minha parte só agora o faço, para não dizerem que contribuí para uma época menos boa. Em nome dos superiores interesses do Benfica, guardei um prudente silêncio de ouro, apesar de discordar de algumas coisas que foram feitas, ditas e de uma estratégia comunicacional que continua a ser um desastre.
Reparem bem. O FC Porto conquistou mais um tricampeoato de futebol, o 4.° título em 5 anos, o 7.° em 8 anos, o 8.° em 10 anos, o 10.° em 15 anos, o 14.° em 20 anos, o 17.° em 25 anos e o 20.° em 30 anos! E com um treinador, segundo dizem, de terceira categoria, pago ao preço de saldo. Que já conquistou dois campeonatos seguidos a um treinador de primeira linha, com um vencimento ao nível dos grandes clubes europeus. Palavras para quê!
Um clube com a grandeza do Benfica vive de títulos e não de vitórias morais. De títulos que lhe devolvam a alma de campeão e não da conquista de "tacinhas". Falar verdade é dizer que esta época, no seguimento das anteriores, soube a pouco, a tristeza e as lágrimas venceram mais uma vez. Os adeptos levaram para casa tristeza e lágrimas, quando deviam levar títulos.
Falar verdade é dizer que o Benfica nada ganhou porque tem uma política desportiva errada. Dispensam jogadores a meio da época, sem critério, apenas prevalece o financeiro. Lembram-se de Witsel, Javi García, e depois do Nolito e Bruno César? Falar verdade é dizer que temos uma equipa com segundas linhas de menor qualidade. Não temos um equipa forte e de qualidade para estar nas três frentes. Falar verdade é dizer que temos uma equipa com jogadores adaptados a certos lugares nucleares. Como se compreende não termos há muito tempo um lateral-esquerdo de raiz? Esta engenharia não resulta sempre. Falar verdade é afirmar que somamos derrotas, nada conquistamos de relevo, e estamos pior do ponto de vista financeiro. Vivemos de empréstimos obrigacionistas para tapar os que vão ficando para trás. Falar verdade é dizer que nem sequer sabemos controlar o tal sistema que dizem que existe. Falar verdade é dizer que não se pode festejar, por antecipação, como sucedeu no Marítimo, como se tivessem ganho o campeonato.
Falar verdade é dizer que não se pode ter uma equipa estafada e presa por pontas. Falar verdade é afirmar que não se deve ser reincidente, ou seja, perder o título de campeão duas vezes, estando à frente do nosso rival na tabela classificativa. Falar verdade é dizer que não se pode empatar na Luz com o Estoril nem ir jogar ao Dragão venerando o Porto, com o autocarro todo atrás. Falar verdade é estar com o Benfica nas alturas decisivas, seja no jogo com o Estoril, seja na final do campeonato de andebol e de hóquei, perdidos para o Porto. Pinto da Costa esteve com o Porto.
É preciso ter uma enorme paixão pelo clube e gostar de futebol para se compreender o Benfica.»
-Rui Rangel, jornal Record, 25 de Maio de 2013

.jpg)













