sábado, 30 de novembro de 2013

José Ribeiro: As diferenças entre Jorge Jesus e Paulo Fonseca


Dois empates caseiros em menos de uma semana fizeram soar os alarmes no Dragão. Um, permitiu a aproximação de Benfica e Sporting, na Liga; o outro deixou comprometida a qualificação da equipa para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Curiosamente, no mesmo período, o Benfica arrancou duas vitórias de aflitos, tanto na Liga como na Champions. Mas houve essa "pequena" diferença": triunfos contra empates. 

Os sinais de quebra do FC Porto eram visíveis há várias semanas, apesar de Paulo Fonseca não os conseguir identificar, atirando para cima do azar todas as causas dos maus resultados. Mesmo agora, confrontado com factos, responde que não acredita em mudanças repentinas. Ora foi precisamente esse o caminho que Jesus escolheu quando começou a sentir que o Benfica não atingia o patamar deseiado. Nenhum deles reconhece os erros, é certo, mas pelo menos o treinador dos encarnados tem procurado soluções de forma insistente. Talvez por isso esteja hoje a fazer o caminho de regresso ao patamar de êxito, enquanto Paulo Fonseca experimenta uma descida ao "inferno".

Desde que se iniciou a época (em rigor, um pouco antes, até), Jesus alterou várias vezes o meio-campo e o ataque. Na maioria das ocasiões, isso ficou a dever-se a lesões. Recorde-se que as águias já estiveram (ou estão) privadas de Salvio, Cardozo, Rodrigo, Djuricic, Markovic, Gaitán, Fejsa, Sulejmani e Ruben Amorim. Não foram lesões simultâneas. Mas obrigaram Jesus a pensar diferente, a criar outras soluções. Também por isso, o meio-campo já foi desenhado de várias formas e com diferentes intérpretes (só Matic e Enzo Pérez fizeram os 10 jogos na Liga). Umas vezes Jesus juntou-lhes Djuricic à frente, Fejsa atrás ou Ruben Amorim ao lado. O ataque já utilizou quase todas as duplas possíveis: Cardozo-Lima, Cardozo-Djuricic; Cardozo-Rodrigo; Lima-Djuricic e Lima-Rodrigo. E até já foi assumido apenas por Cardozo. As opções de Jesus podem agradar ou não aos adeptos. Mas, lá está, ele procura a melhor fórmula e aceita os riscos dessas mudanças repentinas.

São precisamente essas alterações de sistema e de posicionamentos que Paulo Fonseca ainda se recusa a fazer. Fernando tem sempre um colega ao lado, chame-se Defour ou Herrera; o FC Porto joga sempre com dois extremos, sejam eles Varela, Josué, Licá ou Ricardo. E Jackson está sistematicamente isolado no ataque, contando com a chegada de Lucho. Muda nomes, não sistema. Os adeptos reclamam mudanças. E não vale a pena tentá-las? 

- José Ribeiro, jornal Record, 29 de Novembro de 2013

João Malheiro: Receção ao FC Porto na última ronda da 1ª volta afigura-se decisória


Quanto vale um ponto de vantagem na Liga? Pouco, muito pouco. Ou talvez muito, mesmo muito, se recordarmos o desfecho do último Campeonato. O Benfica, a par do Sporting, morde, agora, os calcanhares ao FC Porto. Um ponto? O que vale? Muito ou pouco?

Valha o que valha, importa recordar que estamos ainda com um terço de competição. Como joga o FC Porto? Mal, muito mal. E tem beneficiado de preciosas ajudas da arbitragem, caso assim não fosse estaria distante da liderança. E o Benfica? Não tem sido persuasivo, pelo menos de forma continuada, mas percebe-se que o clima emocional é mais favorável, que o conjunto está mais próximo da rentabilidade que patenteou na última época, exceção feita ao fatídico mês de Maio. 

O Sporting? Está voluntarioso, demonstra caráter e ambição, conquanto sabe-se que não dispõe dos mesmos recursos dos seus principais oponentes.

O que se exige aos benfiquistas nesta fase da prova? Apoio incondicional. O horizonte próximo contempla desafios de alguma envergadura, só que muito suscetíveis de se saldarem em triunfos importantes. A receção ao FC Porto, na última ronda desta primeira volta, afigura-se decisória. Não é de enjeitar que o Benfica receba o seu antagonista na liderança ou a um passo da sua consumação.

O momento é de unidade. Está tudo em aberto e os últimos indicadores são preciosos, fazem recrudescer o clima de entusiasmo. Vamos todos dar um pouco mais à equipa? Não será que a dívida dos jogadores pode ser saldada, atraindo também eles os apaniguados vermelhos? A combinação, a cumplicidade adeptos/equipa é mesmo decisiva. O Benfica justifica, o resultado só pode ser o sucesso. 

- João Malheiro, jornal 'O Benfica', 29 de Novembro de 2013

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Anderlecht 2-3 Benfica: Relato Alexandre Afonso Antena 1

Bruno de Carvalho: Declarações polémicas sobre a Bandeira Nacional podem levar a pena de prisão?


"ARTIGO 332.º do Código Penal
(Ultraje de símbolos nacionais e regionais)


1- Quem publicamente, por palavras, gestos ou divulgação de escrito, ou por outro meio de comunicação com o público, ultrajar a República, a bandeira ou o hino nacionais, as armas ou emblemas da soberania portuguesa, ou faltar ao respeito que lhes é devido, é punido com pena de prisão até 2 anos ou com pena de multa até 240 dias."

Fernando Guerra: Jesus está esgotado mas Paulo Fonseca vai ser capaz de erguer a empreitada


Em concreto, sobre Jorge Jesus julgo ter-se esgotado o que havia a dizer. Chegou ao Benfica sem currículo, sem nada de relevante para exibir. Competia-lhe estender uma passadeira a Luís Filipe Vieira e expressar-lhe eterno agradecimento por ter feito dele o que nem ele alguma vez sonhou ser. 

Em vez disso, apesar de ser dono do pior registo na história da águia, na relação contrato/títulos conquistados, insiste em abusar da sua megalomania para contradizer o presidente, colocar-se acima da instituição Benfica e ludibriar o tribunal público. Até ver, é uma questão de tempo...

No que se refere a Paulo Fonseca, o problema é diametralmente oposto, na medida em que em cada frase dita apenas consigo enxergar sinceridade. E acentuada ingenuidade, reflexo de quem acusa as naturais dificuldades suscitadas por promoção tão espontânea e surpreendente quanto gigantesca. 

Acredito que será capaz de erguer a empreitada, mas a herança é ingrata. Talvez precise de rever a sua lógica de discurso, emprestando-lhe firmeza, e de alertar as memórias débeis que uma coisa é dispor de João Moutinho, Hulk ou James Rodriguez, outra, incomensuravelmente diferente, de Licá, Josué, Carlos Eduardo ou Ghilas... Paulo Fonseca jamais podia ter recusado o convite do dragão, mas os riscos são imensos e perigosos...

-Fernando Guerra, jornal A Bola, 26 de Novembro de 2013

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Luís Pedro Sousa: Markovic tem que pedir lições de humildade a Matic


Mesmo defrontando uma das piores equipas do Sp. Braga dos últimos anos, o Benfica não conseguiu ser superior ao adversário, que colocou uma vez mais a nú muitas das fragilidades evidenciadas desde o início da temporada. Os encarnados não têm um sistema tático consolidado, uma matriz de jogo devidamente absorvida pelos seus intérpretes e continuam sem transformar em mais-valias a esmagadora maioria dos reforços.

O Sp. Braga, mesmo somando a quinta derrota consecutiva na Liga, o que só surpreende quem nunca compreendeu o papel que jogadores como Ruben Amorim, Hugo Viana e Mossoró desempenhavam na equipa, só pode penitenciar-se da fífia de Mauro, que permitiu a Matic materializar em golo uma das raras oportunidades de que o Benfica dispôs.
A partida de ontem na Luz fez, aliás, emergir dois sérvios como principais protagonistas, embora por motivos antagónicos. Um que já é, passe o exagero, um decano da casa e se encontra em nítida subida de produção, e um outro recém-chegado, ainda jovem e rotulado de craque, que desrespeitou o treinador interino, Raul José, por não ter percebido que a sua substituição se ficou a dever única e exclusivamente ao laxismo evidenciado em campo.

Markovic, paradoxalmente o único dos reforços que já mostrara qualidade, bem pode pedir lições de humildade e profissionalismo ao compatriota. Matic, que ontem deu 3 pontos ao Benfica mercê de uma inspirada jogada individual, chegou à Luz negociado pelo Chelsea e não pelo Partizan. Preterido de forma sistemática por Javi García, soube aguardar, procurar o seu espaço e agarrar as oportunidades que entretanto surgiram. Depois de um início de época soluçante, já que foi uma das principais vítimas dos constantes acertos tático-estratégicos que Jorge Jesus promoveu, parece agora de volta aos tempos áureos, o que lhe valerá certamente, e num futuro não muito longínquo, o salto para uma liga mais competitiva. O avançado, ao invés, não compreendeu que há etapas a queimar e um estatuto por conquistar... à custa de exibições regulares e compromisso constante.

Mesmo sem ser superior ao Sp. Braga, o Benfica alcançou uma vitória que o coloca a 1 ponto apenas do FCPorto, que, por seu turno, não traduziu em golos a supremacia demonstrada perante o Nacional. Mas, apesar do inquestionável domínio do jogo, Paulo Fonseca continua sem saber resolver problemas também evidentes desde há muito. O tridente do miolo não funciona e as constantes mudanças nas alas em nada beneficiam o coletivo.

-Luís Pedro Sousa, jornal Record

domingo, 24 de novembro de 2013

Afonso de Melo: Estátua de Cosme Damião provocou crise de urticária no Porto


1. Parece que a ideia de erigir uma estátua a Cosme Damião, o grande ideólogo do Benfica, provocou uma crise de urticária a Oeste de Pecos. Habituados a ser favorecidos pela Câmara de Gaia, os seguidores do Madaleno insurgem-se quanto à despesa que possa ser levada a cabo pela Câmara de Lisboa. Possívelmente, e pela sua forma de estar na vida, esperariam que fosse a Câmara de Almada a pagar a obra. Mas registe-se a evolução: para quem sempre desejou ver «Lisboa a arder» (imagine-se o gasto que seria para o erário público) revelar esse tipo de preocupação é de louvar. Esperamos agora que se levante em Gaia uma estátua ao fundador do FC Porto. Se até lá se decidirem por um.

2. Defour é um excelente entrevistado. Depois de ter confessado que mal chegou a Portugal foi proibido pelos dirigentes do seu clube de manter a amizade que trazia da Bélgica com o benfiquista Witsel, vem agora dizer que no «FC Porto se divertem imenso». Acredito. Mas não tanto, com certeza, como no tempo de Hulk e Sapunaru, aqueles moços gaiatos que rebentavam com os túneis e os «stewards» a pontapé. Isso, por mais que o Copiador-de-Livros-Alheios, do alto da sua grande honestidade intelectual, teime em desmentir, é que eram tempos felizes!

3. O presidente do Sporting também é um rapazinho feliz, à sua maneira. Viaja no autocarro da equipa, dá uns pontapés na bola com os profissionais, senta-se no banco de suplentes e embaraça o treinador, já é mais popular do que o Paulinho, essa jóia de menino que não merecia tal desfeita. A sua última tirada foi de estalo. Consta que se dirigiu ao árbitro, Duarte Gomes, dizendo: «Temos de falar, nós os dois!» É de homem! Só posso entender tal frase de duas maneiras: ou como uma ameaça, ou como um convite para tomar um cafézinho. Vai longe... 


- Afonso de Melo, jornal 'O Benfica', 22 de Novembro de 2013

Vítor Serpa: Benfica e FC Porto estão piores que na época passada


Muito provavelmente, o campeonato mais aberto dos últimos anos. Não tanto pelas capacidades dos principais protagonistas, mas pelas insuficiências súbitas e imprevistas. Nem FC Porto nem Benfica melhoraram em relação à última época. Pelo contrário, pioraram. 

Há, agora, a acrescentar no cenário de candidatos o improvável Sporting. Não pelo currículo, não pela História grande que o clube tem, mas pelos tempos recentes que não deixavam prever recuperação tão rápida. Se ganharem hoje, os leões mantêm-se em igualdade de pontos com o Benfica e ficarão apenas a um ponto do líder!

Ontem, o FC Porto não conseguiu melhor do que um mísero ponto, em casa, frente ao Nacional. Foi mais uma noite sem rasgo, sem a qualidade e, especialmente, sem o ímpeto de tempos recentes. Poder-se-ia dizer que melhor esteve o Benfica, que diminuiu a distância para o seu principal rival chegando à diferença mínima, não se desse o caso de ter tido alguma sorte na vitória sobre o Braga e de ter mostrado mais uma vez que, no campo, é bem mais dependente de Cardozo do que do seu treinador.

No fundo, Benfica e FC Porto regressaram de férias forçadas pela gloriosa jornada da Seleção Nacional em piores condições. Foram, ambos, previsíveis e estranhamente vulneráveis. Como há muito não se via.

No Benfica, salvou-se o resultado. Uma vitória, mais ou menos merecida é sempre uma vitória e vale os mesmos três pontos do que uma vitória em jogo da mais elevada nota artística. 

No FC Porto, nem o resultado se salvou. No regresso certamente sacrificado de Pinto da Costa à galeria presidencial a equipa esbanjou pontos que poderão vir a revelar-se preciosos.

Esperemos, hoje, pelo Sporting para ver se os seus jogadores chegaram de férias animados. Aliás, saberem que podem ficar a um ponto do líder já deverá ser suficiente motivação... 

- Vítor Serpa, jornal A Bola, 24 de Novembro de 2013

Ricardo Costa esclarece: Acordo no processo Jorge Jesus está contemplado nos regulamentos


Nada como um caso mediático isto é, um caso envolvendo um clube grande - para descobrir os meandros da "lei desportiva" e desvelar as novidades. Por experiência própria o redijo: só um processo de um grande ou de um grande jogo pode chamar a atenção para aquilo que existe e - se for essa a circunstância - sempre se aplicou antes com o mesmo critério e com igual método a dezenas de outros casos. Nesta época, noutras épocas ou em todas as épocas.
  Vem isto a propósito do "processo Jorge Jesus". Depois de se perceber que a decisão sairia muito antes do Verão de 2014 (ao invés do augúrio dos especialistas), surgiu na imprensa e nos painéis televisivos que o castigo seria 30 dias. 

Para um jurista conhecedor do Regulamento Disciplinar da Liga, isso não significava (com esse detalhe) qualquer futurologia "instruída" sobre a decisão do Conselho de Disciplina (CD) da FPF. Isso só poderia significar uma "informação privilegiada" da documentação chegada ao edifício da FPF: o "acordo" entre o arguido Jorge Jesus e a Comissão de Instrução e Inquéritos (CII) da Liga (o "Ministério Público" do futebol profissional) sobre a infracção e a sanção a aplicar aos factos constantes do processo, dependente ulteriormente da apreciação final do CD. Ilegal? Não. 

Desde 2011 que esta possibilidade de o destino dos processos ser objecto de um "consenso" entre arguidos e a CII está prevista, sob a forma de requerimento conjunto que o CD "ratificará". Corrente? Cada vez mais se verifica os arguidos desportivos optarem pelo caminho do "menor risco", ainda que prescindindo de lutar pela absolvição junto do CD ou do direito de recurso. 

Ilimitado? Não, pois o CD tem que respeitar pressupostos para a "homologação" - por ex., recusa o acordo se não concordar que foi cometida a infracção disciplinar que nele se indica ou se foi outra a cometida.

Entre agressão (punível a partir de 3 meses), conduta "grosseira" (que, havendo "acordo", tinha entre 8 dias a 3 meses como moldura da suspensão) e lutar juridicamente por uma exclusão da sua culpa e em julgamento, Jesus optou pelo caminho intermédio: reconheceu a "grosseria" e propôs ser castigado em 30 dias: a CII concordou; o CD aceitou esse ilícito (requisito imprescindível) e considerou adequada a pena. Assim fez Jesus, tantos outros já fizeram e assim farão muitos outros no futuro. 

Não se trata agora de prever o "verão" dos castigos; antes o de prever o tempo e o modo das "cooperações" na justiça desportiva. Um novo paradigma, portanto. Que ainda escapa a alguns especialistas. 


- Ricardo Costa, jornal Record, 24 de Novembro de 2013

Polémica: Castigo de Jesus foi acordado entre o Benfica e a Liga


O Benfica está de parabéns em relação à forma como conduziu, juridicamente, o "caso Jesus" (em Guimarães) mas tem de agradecer à Liga a disponibilidade que revelou em tirar o treinador do Benfica das garras de um castigo tendencialmente mais duro, nunca inferior a três meses. A opinião pública não entende estes benefícios ao infractor e a integridade do futebol não ganha nada com as sistémicas branduras disciplinares.

Chegaram-me muitas reacções aos comentários que fiz na SIC Notícias, sobre o castigo federativo aplicado a Jorge Jesus, aplicado mediante um acordo entre o treinador dos encarnados e a Comissão de Instrução e Inquéritos da Liga (CII). Conhecia o acórdão do CD da FPF e estava informado sobre as bases em que assentava o acordo conjunto de sanção a aplicar sob a forma de processo especial abreviado que a CII e o treinador do Benfica haviam realizado.

Trata-se de uma decisão polémica, porque o mês de suspensão aplicado pelo CD da FPF, que resulta da homologação do acordo subscrito pela CII e por Jorge Jesus, não tem correspondência com as imagens vistas e revistas, através da televisão, dos acontecimentos em Guimarães em que o treinador do Benfica se assumiu como principal protagonista. Como é isso possível então?

No decurso da instrução, Jorge Jesus apresentou requerimento nos termos previstos no artigo 252 do Regulamento Disciplinar, que lhe permitia acordar na sanção aplicável aos factos indiciados no processo. Perante este requerimento (base legal), a CII considerou estarem reunidos todos os requisitos para a aplicação da sanção prevista no art. 136 (lesão da honra e reputação), cuja suspensão se acha entre o mínimo de um mês e o máximo de um ano. E porquê? Porque Jorge Jesus acedeu em concordar que, mesmo de forma indevida, tentou ajudar o adepto em tronco nu (que todos vimos nas imagens) a regressar às bancadas. Os inquiridos em sede de instrução confessaram uma certa indignação ao 'tratamento desigualitário" que estava a ser dado àquele adepto e que a conduta de Jorge Jesus havia sido motivada por essa indignação, face ao excesso de força utilizado pelas forças de segurança.

Por que razão foi aplicado o art. 136 ("Lesão da honra e da reputação") e não o 131 ("Agressões")? Porque o art. 131 refere que à agressão deve estar subjacente um acto voluntário. A conclusão foi no sentido de não se lograr a convicção de que houve vontade de Jorge Jesus em agredir. Não houve "ânimo de agredir"; ao invés - pode ler-se no acordo - "aquilo a que o arguido dirigia a sua vontade não era a agressão de outra pessoa, mas antes a 'libertação' de alguém que achou estar a ser sujeito a uma força excessiva e lhe pedia ajuda".

Perguntam os leitores: mas então, neste caso, perante os antecedentes disciplinares do treinador do Benfica, não há reincidência e, como tal, agravamento da pena? Há. Na verdade, Jorge Jesus, em função de ter sido castigado em 2011/12, deveria ter sido sancionado com um mínimo de dois meses de suspensão, mas pelo facto de ser treinador (beneficia de uma redução "a um quarto") e de ter confessado a factualidade acima descrita, à CII afigurou-se adequada a aplicação de uma sanção de 30 dias de suspensão, considerando o princípio da proporcionalidade.

Em síntese: é possível que Jorge Jesus tenha "cegado" e não se tenha apercebido da gravidade dos actos que perpetrou em Guimarães, na noite de 22 de Setembro. O contexto em que ele se encontrava, sob enorme pressão, no seguimento do "caso Cardozo", com os adeptos a optar pelo apoio ao paraguaio, não o colocava numa posição de estabilidade emocional. Mas isso não invalida o reconhecimento da factualidade. Jorge Jesus é um grande treinador, mas a justiça desportiva não pode continuar a arranjar expedientes para o proteger. Dos actos e das declarações. Já são muitos os exemplos contraproducentes, que penalizam a sua imagem e a do clube encarnado.

Sem a "colaboração" da CII, Jorge Jesus não escaparia a um mínimo de 3 meses de suspensão.

Assim, e num processo relativamente célere (apontei sempre para este prazo, ao contrário de Pinto da Costa que fez declarações em sentido contrário, prevendo que o castigo só sairia lá para o Verão), o Benfica não contará com o seu técnico no jogo de hoje com o Sp. Braga, e ainda com o Rio Ave, Arouca e Olhanense. Sem dúvida, um mal menor.

NOTA - O DN de sexta-feira utilizava uma "fonte do Benfica" para desmentir a notícia em primeira mão que havia dado no Tempo Extra da Sic Notícias, segundo a qual o castigo de Jorge Jesus tinha sido acordado com a CII, no âmbito de um mecanismo regulamentar. Oficialmente, no Benfica, ninguém o assumiu porque era impossível fazê-lo. O relator do acórdão escreve, inclusive que por princípio a sua posição é "contrária a este tipo de negociação". Negociação, sim. Acordo, sim. O DN foi enganado e não lhe teria ficado mal reparar o erro. 


- Rui Santos, jornal Record, 23 de Novembro de 2013

Video Futsal: Benfica vence Olivais por 5-2

Benfica 1-0 Braga: Golo de Matic com relato de Paulo Cintrão TSF

Benfica 1-0 Braga: Golo de Matic com relato de Nuno Matos Antena 1

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Leonor Pinhão e o castigo de Jesus: Conselho de Disciplina da Liga deliberou bem


Jorge Jesus foi suspenso por 30 dias pela justiça desportiva e só voltará ao banco do Benfica no fim de 2013. Deliberou rápido, em função dos padrões correntes, o Conselho de Disciplina da Liga e, quanto a mim, deliberou bem.
Não podia passar sem consequências o ataque de filoxera que acometeu o nosso treinador nos instantes que se seguiram à saborosíssima vitória do Benfica em Guimarães.

A justiça desportiva entendeu que o treinador do Benfica interpretou gestos grosseiros, à vista de todos, e que proferiu injúrias ao alcance de quem as ouviu e, neste particular, já não foram todos, apenas os circundantes.
Por sua vez, o CD da Liga, depois de ouvir os implicados, decidiu que Jorge Jesus não agrediu nem stewards, nem polícias, nem escuteiros e que também não atropelou nenhum fotógrafo numa eventual fuga para a frente. E mais uma vez vejo-me a concordar com a justiça desportiva. O treinador do Benfica, pelo que as imagens mostram, não bateu em ninguém.

Trinta dias de suspensão parece-me castigo suficiente para que Jorge Jesus, na próxima ocasião em que sinta a percorrê-lo as urgências do motim, pense duas vezes no assunto antes de avançar de peito feito contra as injustiças do mundo.

Admito que os adversários, especialmente os rivais do Benfica, considerem curto o castigo e não demorem a pôr cá fora que o Benfica domina isto tudo não só desde o tempo do Salazar como também do tempo do nosso rei D. Carlos I e último. É deixá-los falar. Ou, à laia de ponto final, digam-lhes que nós sabemos muito bem quem é que manda nisto tudo desde os últimos treze primeiros-ministros.

-Leonor Pinhão, jornal A Bola, 21 de Novembro 2013

Carlos Daniel: Excelente análise sobre a importância da Selecção Nacional

Caricato: Josué explica em inglês porque mostrou o dedo do meio ao público Sueco

Relato de Nuno Matos no Suécia-Portugal faz furor na televisão Brasileira

Jorge Jesus raege à suspensão de 30 dias da FPF e imita Van Damme em anúncio da Volvo

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Rui Dias: Gáitan inventa com a cabeça os milagres que executa com os pés

 

Ainda precisa de calibrar inteligência lógica e inteligência criativa; ser o funcionário que cumpre regras do senso comum e o génio que desestabiliza a rotina. Mas poucos como ele alimentam o futebol como jogo e espetáculo

1. Defende a bola como um tesouro precioso; o corpo utiliza-o para escapar à fúria de carrascos sem pudor mas também para contar mentiras aos adversários; inventa com a cabeça os milagres que executa com os pés, sinal de que há nele coragem física a enfrentar os choques e força moral para querer sempre a bola e tentá-los. Gaitán possui todas as matérias-primas necessárias para tirar gente do caminho: domínio, arranque, velocidade, travagem e saída para onde manda o instinto. É um jogador deslumbrante, que faz cada vez melhor o que deve nas zonas neutras e ilumina a manobra ofensiva, em terrenos e circunstâncias onde espaços e companheiros, existindo, se escondem e até desaparecem em milésimos de segundo.

2. Como passa normalmente a primeira barreira de pressão, conquista vasto horizonte pela frente, que lhe permite expressar a técnica sublime e a infindável capacidade para inventar. Costuma jogar na esquerda mas também pode fazê-lo no meio, assumindo papel de intermediário entre a equipa e o ponta-de-lança; entre o jogo e o golo. Na época passada, em grande parte dos jogos europeus fora da Luz, ocupou essa zona vazia quando a equipa atua com dois avançados e que, em 2013/14, já foi preenchida, em nome de equilíbrio e segurança, juntando Ruben Amorim a Matic e Enzo. Nico não tem o sentido estratégico dos grandes maestros mas por ser habilidoso, veloz e coordenado; por viver na permanente busca de espaços vazios e usufruir de quase todas as armas para fazer a diferença, no meio encontra mais panorama para tomar decisões mortíferas.

3. Aos 25 anos ainda peca por entregar-se a exercícios solitários condenados ao fracasso e pela menor generosidade no apoio defensivo. Mas quando põe tudo em pratos limpos, tira da cartola a iniciativa assombrosa com a bola colada ao pé esquerdo, o passe de morte ou o cruzamento perfeito, como se a glória estivesse, afinal, à distância de um estalar de dedos. Com confiança insolente nas suas capacidades, Gaitán é fabuloso a servir os especialistas do último toque, a alimentá-los expressando a qualidade que interfere no produto final da equipa e na melhoria de quem exerce na sua zona de ação. Na aproximação à baliza é impressionante o modo como vê analisa, decide e executa em centésimos de segundo, como se os quatro passos fossem apenas um.

4. No gráfico de produção no Benfica há demasiados altos e baixos que lhe têm atrasado a afirmação como estrela universal. Ao nível mais elevado, é difícil a vida de quem é regularmente recriminado na queda com os antónimos dos adjetivos que ouviu na escalada. Na quarta temporada com a águia ao peito, Gaitán é dos poucos elementos do plantel encarnado de quem Jorge Jesus ainda não extraiu, em continuidade, toda a excelência do futebol que tem para oferecer. Para se consolidar como um dos mais extraordinários futebolistas da Liga, dono de um pé esquerdo abençoado e senhor de ilimitada imaginação, precisa ainda de calibrar a inteligência lógica e a inteligência criativa; ser o funcionário que cumpre todas as regras do senso comum e o artista que agita e desestabiliza a rotina. Poucos como ele têm arte para alimentar o futebol como jogo e espetáculo. 

- Rui Dias, jornal Record, 20 de Novembro de 2013

José António Saraiva: Varela tem lugar no trio da frente da Selecção


O treinador sueco tinha dito que o jogo de ontem não iria ser um Ronaldo-Zlatan (Ibrahimovic). Mal sabia ele que estava a resumir o encontro: no final, seria Ronaldo 3 - Zlatan 2.

A idolatria incomoda-me, e não gosto do endeusamento que os jornalistas portugueses fazem de Ronaldo. Até porque é desmotivador para os restantes jogadores da Seleção que tenderão a dizer: "Se Ronaldo é o Deus, então ele que resolva". Felizmente isso não aconteceu ontem, e todos os jogadores foram de uma abnegação extrema.

Entretanto, com todas estas reservas à idolatria, devo reconhecer que Ronaldo fez finalmente um jogo ao mais alto nível na Seleção portuguesa. Os três golos que marcou mostram até que ponto se transformou numa "máquina de fazer golos". Abdicou de algumas qualidades que tinha para concentrar toda a sua energia no ataque à baliza.

Perdeu em capacidade de finta, mas ganhou em capacidade de desmarcação, poder de remate com os dois pés, impulsão e jogo de cabeça. E talvez hoje o goleador mais temível do futebol mundial.

Este apuramento para o Mundial também consagrou outro homem que às vezes é apresentado como o "patinho feio" da Seleção, menosprezado por comentadores e odiado por muitos adeptos do FC Porto e Benfica. Mas é uma ingratidão fazê-lo. Paulo Bento pegou numa equipa que Oueiroz deixara de rastos e fê-la renascer. Ontem, a nossa Seleção realizou um dos mais belos jogos que lhe vi fazer.

Num rápido olhar sobre os 23 que irão ao Brasil, direi que Portugal tem poucas alternativas na defesa (para lá dos titulares de ontem não há grandes opções), tem imensas alternativas no miolo (Veloso, Meireles, Moutinho, Josué, William Carvalho, Ruben Amorim, Ruben Micael) e tem pouquíssimas alternativas no ataque. Nani está muito em baixo e Postiga e Hugo Almeida são fraquinhos. Ontem Ronaldo fez tudo, mas não pode ser sempre assim. Julgo que Varela tem lugar no trio da frente.

Agora, na fase final, devemos ter esperança. Muitos dos nossos jogadores vão ter no Brasil o momento da verdade. Patrício, Pepe, João Moutinho, Nani, Coentrão vão ter uma oportunidade irrepetível de provarem ao mundo a sua, qualidade. E isso pode ser decisivo. 

- José António Saraiva, jornal Record, 20 de Novembro de 2013